21 de abr de 2011

Dá Pra Tratar a Obesidade Sem Remédios?




A pergunta vem à tona no momento em que o órgão regulador de medicamentos do país ameaça proibir as drogas para emagrecer que atuam no sistema nervoso. Em meio à polêmica, investigamos os dilemas e as promessas que envolvem a luta contra o excesso de peso.

O cerco aos remédios que inibem o apetite ultrapassou as fronteiras europeias e americanas e chegou ao Brasil. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) quer retirar do mercado a sibutramina e os comprimidos à base de anfetamina. "Os estudos e os dados obtidos apontam que os benefícios desses fármacos não compensam os riscos", afirma Maria Eugenia Cury, chefe do Núcleo de Investigação em Vigilância Sanitária da entidade. Na contramão, sociedades médicas condenaram a posição, declarando que, ao reduzir o arsenal terapêutico a favor do emagrecimento, o controle da obesidade se enfraquecerá e muitos brasileiros não conseguirão erradicá-la de sua vida. Diante da discussão, nada mais justo do que conhecer as visões antagônicas sobre o papel desses remédios, que deveriam ser receitados quando mudanças no estilo de vida são insuficientes para abaixar o ponteiro da balança.

Comecemos com a sibutramina, que está na mira da Anvisa desde o ano passado. Uma pesquisa conduzida na Europa revelou que essa droga, capaz de prolongar a saciedade, eleva o risco de infartos e derrames — o que resultou na cassação do remédio na União Europeia e nos Estados Unidos. "Esse trabalho, no entanto, foi feito com pessoas de alto risco cardiovascular, para as quais a sibutramina não deveria mesmo ser prescrita", critica a endocrinologista Rosana Radominski, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica. "Quando bem indicada, ela é uma opção eficiente para ajudar o paciente a emagrecer."

Já os anfetamínicos, que também domam a fome, recebem uma acusação mais grave. "Eles aumentam a probabilidade de problemas cardíacos, pulmonares e psíquicos, podendo levar à dependência e à psicose", diz Maria Eugenia. "Não faz sentido deixar à venda drogas que não são seguras e ainda têm sua eficácia questionável", completa. Para o endocrinologista Marcio Mancini, da Sociedade Brasi leira de Endocrinologia e Metabologia, tudo depende da avaliação do paciente — muitos respondem bem a esses fármacos na berlinda. "Aboli-los é tratar uma doença como a obesidade com preconceito. Todo tipo de remédio contra qualquer doença apresenta riscos e efeitos adversos", diz.

O fato é que, com a saída da sibutramina e dos anfetamínicos das prateleiras, o tratamento farmacológico da obesidade vai enxugar para valer. "Só teremos à disposição o orlistat, droga que reduz a absorção da gordura ingerida mas que é muito cara e não interfere no apetite", observa Rosana. Além dela, persistirão alguns antidepressivos cujos efeitos são modestos e, por isso, não passam de coadjuvantes. Para a Anvisa, as mudanças de hábito, aliadas a um acompanhamento com médicos, nutricionistas e psicólogos, seriam satisfatórias para contra-atacar a obesidade. Mas muitos especialistas no assunto refutam: segundo eles, há pessoas que necessitam de remédio sobretudo para começar a emagrecer. "Os inibidores de apetite aceleram a perda de peso, o que estimula a adesão ao tratamento completo", avalia o psiquiatra Arthur Kaufman, do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Mas é preciso esclarecer que esses medicamentos não são a fórmula mágica para o emagrecimento. Longe disso. "Eles propiciam uma redução de 10% do peso, mas, depois de um tempo, o organismo se acostuma e o efeito fica limitado", admite a endocrinologista Maria Teresa Zanella, da Universidade Federal de São Paulo. "No entanto, quando o obeso perde 5% da sua massa, já observamos uma diminuição no risco de diabete e doenças cardíacas", afirma.

O debate em torno dos inibidores de apetite nos remete a outra questão: é possível tratar a obesidade sem intervir no cérebro? "É o sistema nervoso que controla a fome, a saciedade e o gasto energético", responde Maria Teresa. "A obesidade também apresenta um componente emocional em 100% dos casos. Com ou sem droga, não há como escapar da cabeça do paciente", afirma Kaufman. Para o endocrinologista Bruno Geloneze, da Universidade Estadual de Campinas, no interior paulista, a discussão motivada pela decisão da Anvisa não pode deixar de levar em conta o real papel dos medicamentos antiobesidade. "Temos que lembrar que a terapia farmacológica é complementar. Só com motivação e modifi cações no estilo de vida o tratamento se sustenta", pondera.

Enquanto a polêmica persiste, centros de pesquisa mundo afora testam outras estratégias pró-emagrecimento — soluções que têm uma longa estrada pela frente antes de virar realidade. "O sonho seria uma droga que atuasse exclusivamente na região do cérebro que controla o apetite", conta Geloneze. Na ausência dela, a ciência tenta interferir em hormônios, no próprio tecido gorduroso e até na flora intestinal. Vale (quase) tudo para emagrecer o planeta.

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